Editorial: A Batalha de Columbia e a Crise da Idolatria Política em Colatina
A eleição para a presidência da Associação de Moradores do Bairro Columbia, realizada ontem (07/12/2025), pode parecer um evento de baixa relevância na política municipal de Colatina. Afinal, trata-se de um cargo não remunerado. No entanto, o embate nos bastidores e, principalmente, a disputa travada nas redes sociais, expuseram uma metástase na política local: a crise da idolatria e a resistência crônica à renovação.
O pleito, que naturalmente serve como termômetro e trampolim para futuras candidaturas à Câmara Municipal — dada a força eleitoral do bairro —, foi disputado por duas chapas: a Chapa 1, ligada à antiga gestão de Guerino Balestrassi, e a Chapa 2, alinhada ao atual prefeito, Renzo Vasconcellos. O que chama a atenção não é o desinteresse aparente das lideranças centrais, mas sim o fanatismo de seus apoiadores.
Enquanto os políticos de mandato mantiveram uma distância estratégica, a internet se incendiou. Grupos e comentários nas redes sociais foram palco de uma disputa acirrada, não sobre planos de melhoria para o Bairro Columbia, mas sobre a exaltação cega dos "patronos" políticos.
O Ciclo Vicioso da Velha Política
Essa disputa local reflete um fenômeno nacional, onde a idolatria impede a evolução. A gênese política de Guerino Balestrassi e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva guarda paralelos notáveis. Ambos emergiram da descrença, usaram a bandeira da esperança e da simplicidade para contrapor a "velha política": Guerino, com seu caminhão 1113 e o showmício popular do "aipim com sal"; Lula, como o voto de mudança após a era FHC.
O paradoxo trágico é que, no processo de se consolidar, eles próprios se transformaram nas figuras da velha política que um dia combateram.
Ao longo de décadas, com múltiplos mandatos executivos e de apoio, esses líderes enraizaram-se na vida pública, dificultando a oxigenação e a renovação de ideias e de quadros de gestão. A permanência se deu, em grande parte, pelo que pode ser chamado de "voto de idolatria": um endosso emocional que inviabiliza o debate crítico e a alternância necessária.
O Defensor da "Mamata"
Hoje, qualquer figura que ouse contrapor o status quo é alvo de uma perseguição implacável por parte dos apoiadores dessas lideranças. E é aqui que o debate ganha seu tom mais cínico. Essa defesa feroz não é apenas motivada pela convicção de que seus líderes são os melhores gestores, mas sim pela defesa de um sistema.
Os apoiadores mais radicais frequentemente são aqueles "grupinhos" que perderam ou temem perder a famosa "mamata": os cargos de confiança, os acessos facilitados, e as benesses que fluem do poder estabelecido.
A eleição em Columbia, portanto, é mais do que uma disputa de bairro; é o sintoma de que Colatina, assim como o país, insiste em girar em torno de figuras carismáticas, presas ao passado. Enquanto os líderes e seus defensores lutam para perpetuar seu tempo no poder, a real renovação política — aquela que questiona, inova e desvincula a fidelidade partidária do interesse pessoal — permanece inviabilizada e sob o cerco da idolatria. A pergunta que fica é: até quando o eleitorado, cansado da polarização de cabine, permitirá que a lealdade cega hipoteque o futuro da boa gestão?
