2025 a Frota parlamentar do ES tem aumento de 68% em locação e ganha contrato extra de R$ 682 mil
VITÓRIA (ES) — A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) promoveu um significativo upgrade nos gastos com a frota de veículos para deputados. Em 2025, a Casa celebrou um novo contrato de locação de carros de luxo cujo valor representa um aumento de 68% em comparação ao acordo anterior, de 2023. Paralelamente, assinou um segundo contrato de locação, revelando uma expansão milionária do benefício em um momento de restrição fiscal no estado.
A reportagem teve acesso aos três instrumentos contratuais que mostram a escalada do custo:
· 2023: Contrato com a Localize por 30 meses, no valor de R$ 3.907.748,40, para até 31 veículos.
· 2025 (Contrato 1): Novo contrato com a CityCar por 30 meses, no valor de R$ 5.886.996,00, para até 40 veículos.
· 2025 (Contrato 2): Contrato extra com a Master Locadora por 30 meses, no valor de R$ 682.500,00, para 8 veículos.
A simples substituição do contrato de 2023 pelo da CityCar em 2025 já representaria um acréscimo de R$ 1.979.247,60 aos cofres públicos. No entanto, a Assembleia optou por uma expansão de locação, mantendo um contrato extra com a Master Locadora. Com isso, a despesa combinada com os dois novos contratos de 2025 salta para R$ 6.569.496,00.
Em termos percentuais, a mudança é ainda mais impactante: os R$ 6,5 milhões dos dois contratos atuais representam um aumento de 68,1% sobre os R$ 3,9 milhões do contrato de 2023. Em resumo, para um período de vigência idêntico (30 meses), a Ales decidiu gastar 68% a mais e ampliar a frota máxima disponível de 31 para 48 veículos.
Um carro e meio por deputado: a matemática da frota superdimensionada
A justificativa para tamanha expansão permanece em discussão, dada a composição da Casa. A Ales é formada por 30 deputados estaduais. Com a sobreposição dos dois contratos de 2025, haverá até 48 veículos à disposição — uma proporção de 1,6 carro por parlamentar.
"É uma lógica operacional incompreensível", afirma um especialista em administração pública, "Quando um órgão público contrata 60% mais veículos do que tem usuários diretos, ele tem a obrigação de demonstrar de forma cristalina a necessidade técnica em disponibilizar veicúlos ,à demais servidores da casa"
.O contrato mais recente e mais caro, prevê um gasto de R$ 5.886.996,00 por 30 meses. Dividindo esse valor pelos 30 deputados, chega-se a um custo individual de R$ 196.233,20 por parlamentar no período, ou R$ 6.541,11 por mês para cada um — valor que, sozinho, supera o salário mínimo nacional.
Padrão "Premium": Couro, Câmbio Automático e Potência
As especificações técnicas exigidas pela ALES para os novos veículos não deixam dúvidas sobre o padrão de conforto buscado. Os automóveis, do tipo Sedan Executivo, devem ser entregues com quilometragem zero (máximo de 200 km rodados) e possuir características de modelos de referência como Toyota Corolla e Nissan Sentra.
Entre os itens obrigatórios que compõem a frota de luxo estão:
- Performance: Motorização mínima de 151 cv e transmissão automática;
- Conforto Interno: Bancos em couro e ar-condicionado automático digital;
- Tecnologia: Central multimídia compatível com Apple CarPlay/Android Auto, câmera de ré e sensores de estacionamento dianteiros e traseiros;
- Segurança e Estética: Seis airbags (frontais, laterais e de cortina), controle de tração e estabilidade, além de pintura metálica ou perolizada nas cores preta ou grafite escuro.
O salto no valor do contrato — que agora beira os R$ 6 milhões — acende um sinal amarelo sobre a priorização dos gastos no Legislativo capixaba. Enquanto o cidadão comum enfrenta a inflação e os desafios econômicos, a "Casa do Povo" assegura para si uma frota que figura entre os veículos mais caros e equipados do mercado nacional.
A exigência de itens como bancos em couro e ar-condicionado digital levanta o questionamento: até que ponto esses acessórios são fundamentais para o exercício da função parlamentar ou se tratam apenas de uma manutenção de privilégios custeada pelo contribuinte? Além disso, a previsão de "veículos provisórios" do tipo SUV (caso os sedans atrasem) mostra que o sistema está montado para que o parlamentar nunca fique sem o conforto do padrão executivo, independentemente dos percalços logísticos.
O contrato é assinado sob a égide da nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021), mas a legalidade do processo não apaga o debate sobre a moralidade de um gasto tão elevado com transporte de luxo, especialmente em uma estrutura que já conta com diversas outras verbas de gabinete.
O único parlamentar que publicamente questiona o sistema. Em declarações anteriores,é o deputado Sérgio Meneguelli, que já classificou o uso indiscriminado de benefícios como "incoerente", embora não haja registros de propostas formais de sua autoria para alterar o modelo.
Em Nota a (Ales) se posicionou
A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) informa que a locação de veículos, contratada por pregão eletrônico, atende toda a estrutura institucional da Casa, incluindo a administração, diretorias, atividades parlamentares, comissões e frentes parlamentares, garantindo o funcionamento regular das ações legislativas.
O novo contrato, firmado dentro da legalidade, apresenta custo médio de mercado no valor mensal de R$ 196,2 mil. O contrato anterior não foi renovado por decisão da empresa, que alegou defasagem dos valores contratuais.
A mesa diretora reafirma que a Casa atua pautada pela legalidade, transparência e respeito à administração pública, princípios reconhecidos nacionalmente pelo Selo Diamante de Transparência, concedido pela Atricon (Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil). A Assembleia também foi eleita pela Atricon como a mais transparente entre todos os órgãos e poderes do Espírito Santo.
