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O Deserto Feminino: Por que o ES tem apenas 10% de mulheres no poder enquanto os ataques crescem?

Publicada em: 06/04/2026 09:45 -

Nos bastidores de Colatina, comentários depreciativos contra primeira-dama reacendem debate sobre machismo na política capixaba

ANÁLISE POLÍTICA | POR KENNEDY GUIDONI | 06 de abril de 2026

O último final de semana nos bastidores do poder em Colatina foi marcado por um roteiro antigo e lamentável: a tentativa de reduzir o papel feminino ao ambiente doméstico. Comentários depreciativos direcionados à primeira-dama, Dra. Lívia Vasconcellos, ecoaram frases como "lugar de mulher é cuidando de casa". O ataque, porém, ignora uma premissa básica da modernidade: o lugar da mulher é onde ela desejar estar, seja no consultório médico, nos bastidores da administração ou no topo de uma lista de votação.

O Padrão da Hostilidade: Um Fenômeno Nacional

O que ocorre em Colatina não é um fato isolado, mas o reflexo de uma cultura política que tenta desestabilizar mulheres por meio da honra e da vida privada. No Espírito Santo, a pré candidata ao senado Maguinha Malta vem sofrendo críticas dentro da própria base que se diz conservadora. Nos bastidores, circularam questionamentos sobre sua orientação sexual, em tom de ataque e desqualificação pessoal, mesmo entre correligionários.

O caso evidencia uma contradição: dentro do próprio espectro que se apresenta como defensor de “valores tradicionais”, mulheres públicas são alvo de escrutínio moral e sexual que homens raramente enfrentam.

No cenário federal, a deputada Carol de Toni viu-se em rota de colisão com o PL após investidas relacionadas à candidatura de Carlos Bolsonaro, chegando a ameaçar a desfiliação. Já Michele Bolsonaro, ex-primeira-dama e potencial candidata em 2026, enfrenta embates duros dentro da própria família Bolsonaro – incluindo resistência explícita de filhos do ex-presidente, que enxergam sua ascensão política com reservas. A disputa expõe como mulheres, mesmo no topo do poder, precisam constantemente reafirmar legitimidade em espaços dominados por homens..

A Sub-representação em Números: O Deserto Feminino

O Espírito Santo tem apenas 4 deputadas estaduais entre 30 cadeiras na Assembleia Legislativa (ALES) – o que representa 13,3% do parlamento estadual. Na Câmara Municipal de Colatina, das 15 vagas, apenas uma é ocupada por uma mulher: a vereadora Lunanda Vago.

Na representação federal, o estado elegeu apenas uma deputada federal para a Câmara em Brasília: Jack Rocha (PT-ES). No Congresso Nacional como um todo, as mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados – um dos índices mais baixos da América Latina, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da Inter-Parliamentary Union.

Especialistas apontam que o ambiente hostil, marcado por ataques pessoais e questionamentos de capacidade, é um dos principais fatores para a sub-representação feminina. “Quando uma mulher ocupa um lugar de destaque, ainda que sem cargo formal, ela é constantemente reduzida a seu papel doméstico ou à sua posição conjugal”, afirma a cientista política e professora da UFES, Carla Vidigal.

Apesar de serem a maioria do eleitorado, as mulheres ocupam espaços minúsculos nas casas de leis:

  • Assembleia Legislativa (ALES): Apenas 4 mulheres entre 30 deputados.

  • Câmara de Colatina: Apenas uma vereadora, Lunanda Vago.

  • Bancada Federal (ES): Apenas uma representante, Jack Rocha.

  • Congresso Nacional: A representação feminina estagna em torno de 18%.

Colatina: Entre o Peculato e a Vocação Técnica

A história das primeiras-damas em Colatina é repleta de contrastes. O município já viu desde esposas de prefeitos condenadas por peculato até aquelas que ocuparam secretarias de governo de forma ativa.

A Dra. Lívia Vasconcellos adota um perfil distinto: médica por profissão, ela optou por não assumir cargos públicos remunerados, mas mantém uma participação técnica e estratégica nos bastidores, especialmente na área da saúde. Essa atuação "sem cargo", mas com influência, parece incomodar setores da "velha política" que ainda enxergam a esposa do gestor como uma figura meramente decorativa.

O papel de Lívia Vasconcellos: bastidores da saúde e possível candidatura

Diferentemente de outras primeiras-damas que marcaram a história recente de Colatina – como uma que foi condenada por peculato (desvio de recursos públicos) e outra que ocupou ativamente a secretaria de governo –, Lívia Vasconcellos optou por não assumir cargo público formal no município.

Apesar disso, sua atuação nos bastidores da administração é reconhecida, especialmente na área da saúde, onde sua formação como médica tem sido utilizada para articular políticas e acompanhar demandas da pasta. Ela participa de reuniões estratégicas e visita unidades de saúde, sem, no entanto, figurar como servidora ou secretária.

Seu nome, segundo fontes ligadas ao meio político local, é um dos que mais emergem para o futuro eleitoral de Colatina. Há possibilidade real de que Lívia Vasconcellos dispute uma cadeira de deputada federal nas próximas eleições, especialmente após a desistência de Paulo Folletto de concorrer – o que abre espaço para novos nomes – e diante de um cansaço generalizado do eleitorado com figuras da “velha política”.

Contato e posicionamento

A reportagem tentou contato com a dra. Lívia Vasconcellos por meio de seus canais institucionais e assessoria pessoal para que pudesse se manifestar sobre os comentários depreciativos, sua atuação nos bastidores da administração e as especulações sobre uma possível candidatura. Até o fechamento desta matéria, não obtivemos resposta.

O espaço permanece aberto para futuras manifestações.

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